Você, com seu carrinho surrado quando o que eu quero é um passeio num carro de luxo.
Você, com seu capilar a lá qualquer um quando o que eu quero é Jim Morrison.
Você e seu jeitinho malandrinho quando o que eu quero é liderança.
Você, tão você, tão qualquer uma, tão menos eu.
domingo, 26 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
I bet
A melodia a levava, era o blues da gata desgarrada. Uma teenager com bafo de pinga. Resto do esmalte vermelho de duas semanas atrás. Luzes a seguindo, olhos fechados, fechados. Aposto que os pais dela nem sabiam o que ela fazia. Às mãos rolavam o cabelo, cabelo levemente molhado pela desastrosa falta de cuidado com o copo de vodka. Sem pensamentos. A música a guiava. Aposto que os pais dela nem sabiam que ela dançava daquele jeito. O que se chamava de pernas, cambaleavam. Ela subiu as escadas, quase caiu lá de cima. Teenager. Como era o nome daquele movimento da Terra mesmo? Translação. A translação se movia tão rapidamente, ela não tinha percebido isso antes. Montanha russa. Braços voando. Girando, girando. Destilado puro, destilado russo. Russa como seus descendentes. Miolos batidos no liquidificador. Que coisa a se fazer.
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É como se eu não conseguisse respirar.
É como se eu não tivesse nada que eu possa contar tudo.
É um vazio.
Se estou mal, fico na minha.
É tudo meu.
Mas não era pra ser tudo só meu.
Tinha que ser de outros.
Não que tivesse que sofrer tudo também, mas que pudesse só me ouvir.
Vale a pena?
É como se eu não tivesse nada que eu possa contar tudo.
É um vazio.
Se estou mal, fico na minha.
É tudo meu.
Mas não era pra ser tudo só meu.
Tinha que ser de outros.
Não que tivesse que sofrer tudo também, mas que pudesse só me ouvir.
Vale a pena?
Jess

Cara priminha. Você mesma, que choca a sociedade desde 1992, percebi o quanto você está crescendo e vejam só, seus demorados 18 anos chegaram! Aleluia, irmãos! Ninguém sabe o quão criminosas nós tivemos que ser pra te botar no meio dos 'dimaior', é... Foi pura adrenalina, leitor. Eu só queria dizer o como você é importante pra mim. E eu sou tão egoísta ao ponto de achar que ninguém quer o seu bem como eu quero. Eu meio que tomo suas dores, odeio quem te faz mal, é uma coisa meio impulsiva. Mas a verdade é que você é uma das únicas pessoas que eu posso dizer que é como a minha pessoa. Certamente com muitas diferenças de personalidade, mas em essência nós nos entendemos muito. Quem sabe ninguém entende nosso mundo interior, as nossas dores parecidas, nossos sonhos, nossas conversas filosóficas viajadas que vão desde teorias malucas sobre O Triângulo das Bermudas, passando por uma leve tensão nos papos da nossa família até nossos diagnósticos psicológicos sobre pessoas problemáticas em certos casos sem cura. E é assim que a gente sempre foi, e sempre vamos ser, cheias dos papos e conversas que não têm fim. A gente já passou por muita coisa junta, como a nossa infância excêntrica com brincadeiras doentes, momentos que passávamos trancadas por livre e espontânea vontade dentro de um quarto jogando video game semanas e semanas, nossa primeira viagem groupie com o Dhani e o Amit (aiaiai), os trotes na velha do 62, nossa adolescência conturbada com os espíritos malignos, o nosso medo pelo Apocalipse, Regan e compasso, nossas piras em filosofia, achando que não teríamos medo mais de nada a partir do momento que virássemos filósofas, nossa época MTV vidradas em clipes e ideologias rebeldes vindas da Lavigne, nosso sonho de ver a Britney dando shows, o Joel, o Taylor, o Bloom, o Depp, o Brad, o Potter, o Sparrow, o Sawyer, o Charlie e o Liam. Vidas secundárias, astrologia, milhares de músicas, uniforme dos Rolling Stones, Florianópolis, nós na MTV com a Penélope, show de um beatle, sol, 14 horas na fila, Hey Jude, Let It Be, Live and Let Die, Yesterday (melhor show da história segundo nós e o Paul McCartney), enfiar um monte de matéria na cabeça antes dos vestibulares, gin and tonic, porre, micos, passar mal, girar na cadeira de rodinhas, sonhos, Europa, Las Vegas, cassino, truco, poker, Rihenne em cima dos quadros da casa da praia (obs: e a faca na mão dela!), teoria do caos, fumaça negra, planos malucos secretos, rir do Mané, falar mal dos outros, link de letra de música identificável, violão, Supersonic, Oasis, Oasis, Oasis. Talvez seja bem no ponto Oasis que tudo começou a fazer sentido. Foi como você disse num dia desses de porre (e eu me lembro porque eu anotei!), "o Liam foi onde eu encaixei tudo", o que de fato explica tudo, parece que a gente encontrou a ideologia que a gente sempre tava procurando, esse ar diferente que a gente sempre teve, mas nunca teve coragem de mostrar pro mundo e hoje a gente consegue isso. E foi aí também que eu percebi que nós não éramos só duas primas que tinham vivido muita porcaria juntas, mas sim duas almas que aspiram pelos mesmos objetivos, de uma maneira que quando uma estiver no estado de "dude, I’m lost", a outra sabe encontrá-la ou até mesmo perdê-la mais um pouco. HAHAHAHA Acho que a gente descobriu muitas coisas juntas e acho que não estamos nem no começo. A gente só reclama da nossa vida, mas lendo esse relato todo vejo que foi tudo bem rock’n roll, certo?! Porém o fato é que we can't get no satisfaction! AHHHHHHHHHHH! Te amo muito, Jeca, muito mesmo! Ao ponto de dividir um pacote de passatempo num dia que a gente não tinha comido quase nada e que não iríamos comer por mais um bom tempo e juntar as moedinhas mais suadas que alguém pode conseguir pra comprar um copo de água e dividir em três.
PS: Talvez você seja o mesmo que eu e nós vemos coisas que eles nunca verão, eu e você vamos viver pra sempre. (por mais que você não ache que essa música é de amizade, eu acho, han u.u).
Cheers!
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Marias
Então eu sou maria palheta daquelas bem sem disfarce, daquelas que já foram maria shampoo e também maria parafina, ah, surfistas!. Mas nunca maria gasolina, ah, essas são safadas, desavergonhadas, dissimuladas. E talvez eu possa ser a nova maria da vez, maria óculos de garrafa(?) que é pra ter um nerd do lado. Hmmm, marias.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Crônica
Vi essa crônica pelos becos da internet e adorei, fala sobre os Besourinhos. Mais precisamento o show do McCartney no Morumbi.
Two of Us - Rob Gordon
Por trás dos cabelos longos e bigode, ele está olhando para baixo, observando algo fixamente. É surpreendido pela chegada do companheiro, que possui cabelos ainda mais longos que quase escondem os óculos de aro fino.
O recém-chegado senta-se ao lado do amigo, olhando para baixo e apertando os olhos devido à miopia. Após alguns segundos, pergunta:
– Ele já entrou no palco?
– Já. Está tocando há alguns minutos – responde o amigo.
– Onde é?
– No Brasil. Em São Paulo, acho.
– Está cheio?
– Muito.
O de óculos permanece em silêncio alguns segundos, tentando captar o som que vem de baixo, de longe.
– O que ele está tocando agora? Jet?
– Acho que sim, não dá para ouvir direito por causa da gritaria. Mas acho que é sim.
– Eu gosto desta música.
– Ele está falando com a platéia, mas não consigo entender nada.
– Acho que é português. Não dá para ouvir direito, o público não deixa.
– Com a gente era assim, também. Lembra no Japão? Ninguém ouvia nada.
– Olhe! All My Loving!
Ambos começam a bater as mãos no joelho, de forma quase inconsciente, acompanhando o ritmo da música. “I’ll pretend that I’m kissing…”, o de bigode canta baixinho.
– George! Você ainda se lembra da letra!
– Tem como esquecer? Aposto que você se lembra também.
– Eu me lembro de todas. Todas as músicas. Todos os versos.
– Ele está afinado ainda, não?
– Ele sempre cantou muito bem. Desde menino, ele sempre cantou muito.
Ficam em silêncio mais um pouco, olhando para baixo atentamente.
– Qual é agora? Drive my Car? A platéia esta fazendo barulho demais.
– Drive my Car. Essa é quase toda dele, sabia? Eu apenas ajudei em uns trechos.
– Está no Rubber Soul, né?
– Acho que sim. Sim.
– A platéia está cantando a música inteira.
– Como eles sabem a letra? Eles não eram nem nascidos quando lançamos isso.
– Não sei... Mas eles estão cantando a música inteira, John. Dá para ver daqui.
Permanecem em silêncio por mais algum tempo. O de óculos, mesmo sem perceber, balança a cabeça para os lados discretamente, ao som da música.
– Ele foi para o piano.
– Eu nunca entendi como ele sabia tocar tantos instrumentos. Isso não é normal.
That leads to your door, Will never disappear
– Qual ele está tocando agora? The Long and Winding Road?
– Sim. Veja! As pessoas estão chorando!
Afastando os cabelos do rosto, o míope aperta ainda mais os olhos, vasculhando a multidão.
– Não gosto dessa música – ele diz, mais para si mesmo que para o amigo.
– É linda. Ninguém conseguia fazer baladas como ele.
– Mas não gosto. Nós mal nos falávamos na época.
– Acontece. Acontece com todo mundo, por que não iria acontecer com a gente?
Verdade.
– Ele está tocando as nossas, olhe. Antes foi And I Love Her. Agora é Blackbird.
– Eu não acredito que as pessoas ainda cantam junto, depois de tantos anos... A letra não está aparecendo no telão? – pergunta o de óculos, abaixando-se ainda mais e tentando ver o palco.
– Não, elas sabem mesmo. Dá para perceber daqui.
– Ele disse meu nome?
– Sim. Você sabe qual ele vai tocar. Ele escreveu para você.
I still remember how it was before, and I’m holding back the tears no more…
– Você está legal, John?
– Eu e ele perdemos muito tempo. Hoje eu sei disso.
– Eu sei.
– Sabe, George... Se nós soubéssemos que eu teria tão pouco tempo, talvez tivéssemos nos comportado de outra maneira.
– Talvez não. Vocês sempre foram melhores amigos. Ele sabia disso. Ele faz questão de cantar essa, todo show. E ele sabe que você está vendo. Ele não canta para a platéia, ele canta para você. É a forma que ele encontra de matar a saudade um pouco.
– Será?
– Sim. Eu senti muito sua falta antes de nos reencontramos. Olhe as pessoas lá embaixo, estão soluçando. Todos sentem sua falta.
– Eu sinto muito a falta dele. Eu sinto muita saudade da gente. Especialmente do começo. Lembra da Alemanha?
– A gente ainda era menino... Tudo era o máximo, tudo era novidade. Nós éramos novidade.
– Nós ainda somos novidade. Olhe, essa é sua!
You’re asking me, my love will grow? I don’t know, I don’t know
– Eu me lembro de quando escrevi. Era difícil escrever algo com vocês ali.
– Essa música é linda.
– Olhe! No telão! Ele colocou uma foto minha!
– A gente gostava demais de você. Você era mais novo, víamos você como uma espécie de caçula.
– Eu sei – concorda o de bigode, rindo alto.
Esperam em silêncio a plateia aplaudir. Ao final da música, ambos estão visivelmente emocionados, cada qual com suas lembranças. Os acordes de uma nova canção parecem despertá-los.
– Eu gosto dessa!
– Essa é dele, não é nossa.
– Band on the Run? Mas poderia ser nossa.
– Se dependesse de mim, seria.
– Ah, sim. De todos nós, você sempre foi o mais roqueiro, essa música é a sua cara.
– Ele fez muita coisa boa, né?
– Sim.
Enquanto o de óculos bate os dedos no joelho, o de bigode, sentado de pernas cruzadas transforma sua própria coxa no braço de uma guitarra imaginária. Ambos parecem distantes, talvez pensando não no que foi, mas no que poderia ter sido.
I read the news today oh boy, About a lucky man who made the grade...
Enquanto o de bigode tamborila os dedos no ritmo, seu amigo remove os óculos rapidamente. Está chorando.
– Você sempre chora nessa.
– Foi uma das últimas que escrevemos juntos. Mesmo separados. Metade é minha, metade é dele. É estranho, hoje, vê-lo cantando minha parte, e eu aqui.
– Ele não está cantando sozinho.
– Como não?
– Olhe o estádio. É uma voz só, uma voz de sessenta mil pessoas.
– O que são aquelas coisas brancas? Balões de gás?
– Sim.
– Como isso fica bonito, vendo daqui de cima.
– Espere… Give peace a chance? Isso não era da música, certo?
– Não.
– Isso é seu!
– Sim.
– O estádio inteiro está cantando! Olhe os balões de gás! As pessoas estão chorando, se abraçando.
O de óculos resmunga um palavrão, sorrindo. Seus óculos estão embaçados, molhados de saudade.
– Let it be. Essa não poderia faltar.
– Eu não me conformo com isso, com as pessoas ainda saberem as letras inteiras.
But in this ever changing world in which we live in
– Eu gosto dessa também.
– Uau! Você viu aquilo, John? São fogos?
– Ficou demais, né?
– Nós não tínhamos isso no nosso tempo.
– Nós não precisávamos.
– Mas ele também não precisa. Mesmo assim, ficou lindo.
– O que as pessoas estão cantando, agora? Hey Jude?
– Sim... Estão abraçados, cantando junto com ele.
– É engraçado, George... Eu sei que nós éramos bons... Mas acho que nunca entendi a importância que temos na vida das pessoas, até pouco tempo atrás. Quando eu assisto aos shows dele, e vejo as pessoas cantando junto, chorando... Mexe demais comigo.
– Nós éramos bons, John. Você sabe disso.
– Aparentemente, ainda somos. As pessoas ainda...
– Ainda o quê?
– Sabe, eu estava errado.
– Oi?
– Quando eu disse que o sonho acabou. Eu estava errado.
– Nós três sempre soubemos disso, que você estava errado. Você sempre falou demais. Lembra aquela confusão de sermos maiores que Deus?
– Sim... Mas o sonho... O sonho não acabou nunca. Eu errei.
– John?
– Sim?
– O sonho nunca vai acabar. Não enquanto as pessoas se lembrarem. E elas vão se lembrar para sempre.
Sorrindo, John Lennon levanta-se e oferece a mão a George Harrison.
– Você está com sua guitarra?
– Eu sempre estou com minha guitarra, você sabe.
– Vamos tocar um pouco?
– Qual?
– Qualquer uma. Deu saudade.
Milhões de quilômetros abaixo, Paul McCartney, emocionado, agradece à platéia.
Two of Us - Rob Gordon
Por trás dos cabelos longos e bigode, ele está olhando para baixo, observando algo fixamente. É surpreendido pela chegada do companheiro, que possui cabelos ainda mais longos que quase escondem os óculos de aro fino.
O recém-chegado senta-se ao lado do amigo, olhando para baixo e apertando os olhos devido à miopia. Após alguns segundos, pergunta:
– Ele já entrou no palco?
– Já. Está tocando há alguns minutos – responde o amigo.
– Onde é?
– No Brasil. Em São Paulo, acho.
– Está cheio?
– Muito.
O de óculos permanece em silêncio alguns segundos, tentando captar o som que vem de baixo, de longe.
– O que ele está tocando agora? Jet?
– Acho que sim, não dá para ouvir direito por causa da gritaria. Mas acho que é sim.
– Eu gosto desta música.
– Ele está falando com a platéia, mas não consigo entender nada.
– Acho que é português. Não dá para ouvir direito, o público não deixa.
– Com a gente era assim, também. Lembra no Japão? Ninguém ouvia nada.
– Olhe! All My Loving!
Ambos começam a bater as mãos no joelho, de forma quase inconsciente, acompanhando o ritmo da música. “I’ll pretend that I’m kissing…”, o de bigode canta baixinho.
– George! Você ainda se lembra da letra!
– Tem como esquecer? Aposto que você se lembra também.
– Eu me lembro de todas. Todas as músicas. Todos os versos.
– Ele está afinado ainda, não?
– Ele sempre cantou muito bem. Desde menino, ele sempre cantou muito.
Ficam em silêncio mais um pouco, olhando para baixo atentamente.
– Qual é agora? Drive my Car? A platéia esta fazendo barulho demais.
– Drive my Car. Essa é quase toda dele, sabia? Eu apenas ajudei em uns trechos.
– Está no Rubber Soul, né?
– Acho que sim. Sim.
– A platéia está cantando a música inteira.
– Como eles sabem a letra? Eles não eram nem nascidos quando lançamos isso.
– Não sei... Mas eles estão cantando a música inteira, John. Dá para ver daqui.
Permanecem em silêncio por mais algum tempo. O de óculos, mesmo sem perceber, balança a cabeça para os lados discretamente, ao som da música.
– Ele foi para o piano.
– Eu nunca entendi como ele sabia tocar tantos instrumentos. Isso não é normal.
That leads to your door, Will never disappear
– Qual ele está tocando agora? The Long and Winding Road?
– Sim. Veja! As pessoas estão chorando!
Afastando os cabelos do rosto, o míope aperta ainda mais os olhos, vasculhando a multidão.
– Não gosto dessa música – ele diz, mais para si mesmo que para o amigo.
– É linda. Ninguém conseguia fazer baladas como ele.
– Mas não gosto. Nós mal nos falávamos na época.
– Acontece. Acontece com todo mundo, por que não iria acontecer com a gente?
Verdade.
– Ele está tocando as nossas, olhe. Antes foi And I Love Her. Agora é Blackbird.
– Eu não acredito que as pessoas ainda cantam junto, depois de tantos anos... A letra não está aparecendo no telão? – pergunta o de óculos, abaixando-se ainda mais e tentando ver o palco.
– Não, elas sabem mesmo. Dá para perceber daqui.
– Ele disse meu nome?
– Sim. Você sabe qual ele vai tocar. Ele escreveu para você.
I still remember how it was before, and I’m holding back the tears no more…
– Você está legal, John?
– Eu e ele perdemos muito tempo. Hoje eu sei disso.
– Eu sei.
– Sabe, George... Se nós soubéssemos que eu teria tão pouco tempo, talvez tivéssemos nos comportado de outra maneira.
– Talvez não. Vocês sempre foram melhores amigos. Ele sabia disso. Ele faz questão de cantar essa, todo show. E ele sabe que você está vendo. Ele não canta para a platéia, ele canta para você. É a forma que ele encontra de matar a saudade um pouco.
– Será?
– Sim. Eu senti muito sua falta antes de nos reencontramos. Olhe as pessoas lá embaixo, estão soluçando. Todos sentem sua falta.
– Eu sinto muito a falta dele. Eu sinto muita saudade da gente. Especialmente do começo. Lembra da Alemanha?
– A gente ainda era menino... Tudo era o máximo, tudo era novidade. Nós éramos novidade.
– Nós ainda somos novidade. Olhe, essa é sua!
You’re asking me, my love will grow? I don’t know, I don’t know
– Eu me lembro de quando escrevi. Era difícil escrever algo com vocês ali.
– Essa música é linda.
– Olhe! No telão! Ele colocou uma foto minha!
– A gente gostava demais de você. Você era mais novo, víamos você como uma espécie de caçula.
– Eu sei – concorda o de bigode, rindo alto.
Esperam em silêncio a plateia aplaudir. Ao final da música, ambos estão visivelmente emocionados, cada qual com suas lembranças. Os acordes de uma nova canção parecem despertá-los.
– Eu gosto dessa!
– Essa é dele, não é nossa.
– Band on the Run? Mas poderia ser nossa.
– Se dependesse de mim, seria.
– Ah, sim. De todos nós, você sempre foi o mais roqueiro, essa música é a sua cara.
– Ele fez muita coisa boa, né?
– Sim.
Enquanto o de óculos bate os dedos no joelho, o de bigode, sentado de pernas cruzadas transforma sua própria coxa no braço de uma guitarra imaginária. Ambos parecem distantes, talvez pensando não no que foi, mas no que poderia ter sido.
I read the news today oh boy, About a lucky man who made the grade...
Enquanto o de bigode tamborila os dedos no ritmo, seu amigo remove os óculos rapidamente. Está chorando.
– Você sempre chora nessa.
– Foi uma das últimas que escrevemos juntos. Mesmo separados. Metade é minha, metade é dele. É estranho, hoje, vê-lo cantando minha parte, e eu aqui.
– Ele não está cantando sozinho.
– Como não?
– Olhe o estádio. É uma voz só, uma voz de sessenta mil pessoas.
– O que são aquelas coisas brancas? Balões de gás?
– Sim.
– Como isso fica bonito, vendo daqui de cima.
– Espere… Give peace a chance? Isso não era da música, certo?
– Não.
– Isso é seu!
– Sim.
– O estádio inteiro está cantando! Olhe os balões de gás! As pessoas estão chorando, se abraçando.
O de óculos resmunga um palavrão, sorrindo. Seus óculos estão embaçados, molhados de saudade.
– Let it be. Essa não poderia faltar.
– Eu não me conformo com isso, com as pessoas ainda saberem as letras inteiras.
But in this ever changing world in which we live in
– Eu gosto dessa também.
– Uau! Você viu aquilo, John? São fogos?
– Ficou demais, né?
– Nós não tínhamos isso no nosso tempo.
– Nós não precisávamos.
– Mas ele também não precisa. Mesmo assim, ficou lindo.
– O que as pessoas estão cantando, agora? Hey Jude?
– Sim... Estão abraçados, cantando junto com ele.
– É engraçado, George... Eu sei que nós éramos bons... Mas acho que nunca entendi a importância que temos na vida das pessoas, até pouco tempo atrás. Quando eu assisto aos shows dele, e vejo as pessoas cantando junto, chorando... Mexe demais comigo.
– Nós éramos bons, John. Você sabe disso.
– Aparentemente, ainda somos. As pessoas ainda...
– Ainda o quê?
– Sabe, eu estava errado.
– Oi?
– Quando eu disse que o sonho acabou. Eu estava errado.
– Nós três sempre soubemos disso, que você estava errado. Você sempre falou demais. Lembra aquela confusão de sermos maiores que Deus?
– Sim... Mas o sonho... O sonho não acabou nunca. Eu errei.
– John?
– Sim?
– O sonho nunca vai acabar. Não enquanto as pessoas se lembrarem. E elas vão se lembrar para sempre.
Sorrindo, John Lennon levanta-se e oferece a mão a George Harrison.
– Você está com sua guitarra?
– Eu sempre estou com minha guitarra, você sabe.
– Vamos tocar um pouco?
– Qual?
– Qualquer uma. Deu saudade.
Milhões de quilômetros abaixo, Paul McCartney, emocionado, agradece à platéia.
sábado, 4 de dezembro de 2010
-
Não sei o que está acontecendo, mas parece que de uns tempos pra cá eu ando meio desligada, sabe? Eu não sei de onde isso vem, mas é um sentimento como se...como se os dias todos passassem a minha volta e eu não atravessasse os dias, entende? Talvez algo como se eu estivesse sempre dormindo. Fora de tudo. E tudo que eu ando com vontade de fazer é dormir. Mas esse dormir me aborrece, me deixa triste. Dói. É como se eu estivesse tão indiferente que nada me atingisse. É como se alguém se declarasse ou me humilhasse e não fizesse diferença nenhuma. E é uma coisa que parece que eu não paro pra pensar no que eu estou fazendo, e porque eu estou fazendo, e porque eu queria mesmo fazer. Talvez isso seja normal, não sei das outras pessoas. É normal isso de passar a vida na inércia? Ou se é alguma patologia não se agarrar a nada? E não é que nada acontece, mas parece que acontece pouca coisa em muito tempo, entende? Quando eu escrevo é porque acontece, caso contrário, fica tudo em branco. E se eu tenho uma manada de textos escritos, eu também tenho muito mais ou textos não escritos. Só de silêncios, reticências. Talvez então fosse porque eu sentia demais e isso era um vício. Agora eu não sinto e quem sabe isso é rotina. E quando olho as páginas passadas só me vejo amando, odiando, vivendo. Mas já faz tanto tempo. Que eu tenho medo que as canções e poemas não façam mais nenhuma diferença.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Myths
Estranhos heróis e moldes quebrados. Vai ver os mitos e lendas morreram. E aquilo que nós amávamos, aquela dimensão extra que nos oferecia a ilusão de um possível infinito próximo pra apagar um pouco das manchas dos erros que a gente tinha, se acabou. Ou não? Perto de ir pra outra dimensão, Desirreé? Faltam quantos dias? Vai sentir aquilo de ter habitado, e bem vivo, aquele espaço de tempo e de mundo que não foi possível? Fosse lá o que fosse. Estranhas recordações daquele tempo não vivido. Estar lá, seja só de alma mesmo. Eu sei que vou. Que delirante.
Honest
'Feliz', fico murmurando, tentando pronunciar essa palavra. Mas essa é uma daquelas palavras como 'amor', que eu nunca entendi. A maioria das pessoas que dizem essas palavras por aí, não têm muita fé nelas, e eu não sou nenhuma exceção. Especialmente essas principais como: feliz e amor e honesto e forte. Elas são tão esquivas, tão relativas quando você as pára para analisar. Digo, pequenas palavras como: barato e falso e procrastinar. Eu me sinto em casa é com essas. Porque elas são tão magricelas, tão rasas e fáceis de dizer. O problema é que as super's palavras são resistentes e também levam consigo vários discípulos ou um babaca pra usar elas sem nenhuma fé e confiança.
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