Agora ele virara homem. Ou pelo menos o pensava. Faculdade, bafos alcoólicos, meios de alucinações disfarçados, “Lucy in the Sky with diamonds”, amigos insanos, população feminina desprovida de compromissos, bla, bla. Não mais nerd, não mais cdf, não mais desengonçado, não mais pais, não mais solidão, agora era tudo sex drugs and rock’n roll. As batidas do DJ enlouqueciam seus tímpanos, sangue e pensamentos esfumaçados. Olhou a sua volta e percebeu que nada havia mudado. Tirou a carteira protuberante do bolso, mas logo guardou. Ali dinheiro era como oxigênio. Se os amigos o vissem, não demoraria muito para que tudo fosse pro ralo. Ou pro estômago, em forma de álcool. Suspirou. Nada havia mudado. No outro canto casais e mais casais se perdiam entre mãos e beijos. Beijos tão tristes, tão vazios, tão passageiros. Do lado do DJ, uma garota bêbada dançava “sensualmente” e pensava estar arrasando. Mas era no mínimo: triste. No outro canto garotos cabeludos se drogavam, dormiam, riam, vomitavam, enlouqueciam. As luzes espalhafatosas da festa escorriam sobre a pele de todos aqueles jovens de espíritos adolescentes animalescos. Próximo ao sofá, João Jorge usava sua primeira jaqueta de couro e tinha vontade de loira de saltos. Olhava para ela, mas no meio de tanta luz colorida, ofuscava seu físico. A loira só dançava com o seu copo de vodka na mão e na outra um cigarro. João Jorge virou as costas sem sucesso. Desistiu.
Na escada, uma ruiva sardenta apreciando belas e largas costas magras de um jovem ex-nerd.
- Oi! Quer?
Ele pegou o copo que ela o oferecia. Hesitou perguntar o que era, hesitou perguntar o nome dela mas tanto faz. Sempre tanto faz. No final da noite todo mundo vai embora e puft. Ninguém se conhece. Tanto faz. Os dois ficaram olhando a festa, ela num degrau mais longe que ele, um degrau acima, um degrau mais intocável, mais diferente, mais me deixe em paz. Um degrau acima, ela pensava que ele podia se deixar acender o cigarro, nem que por algumas tragadas, pelo fogo que ela estendia derramava incendiava e explodia para e por ele.
- Gata, você me ama? - Perguntou o rapaz para a ruiva.
- Claro que sim, pelo menos hoje.
A carência os fazia criar um sentimento eterno de uma noite só.
E na pista de dança, as pessoas viviam.
As coisas não mudaram.
By: Desirreé
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